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Visita ampliada de familiares reduz tempo de paciente na UTI do HGE

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Repórter: Neide Brandão
Repórter Fotográfica: Neide Brandão
 

Um acidente. A moto caída no asfalto. Dor, angústia. A espera por notícias do seu familiar após uma cirurgia. O ambiente hospitalar. Essa é parte da história de Elisangela Rodrigues e de muitos outros familiares de pacientes. Mas a dela não acaba assim. Elisangela acompanhou o pai, o aposentado José Rodrigues, 72 anos, dentro da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Geral do Estado (HGE). Isto graças ao projeto UTI Visitas, que permite a presença de familiares dentro da área restrita, contribuindo para o desfecho clínico positivo dos pacientes.

O projeto, conduzido pelo Hospital Moinho de Ventos, de Porto Alegre, em parceria com o Ministério da Saúde, por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS), veio para quebrar o paradigma do modelo restritivo de visita nos centros de terapia intensiva em todo o Brasil. O projeto selecionou 40 UTIs das cinco regiões do país que tiveram a tarefa de avaliar os pacientes nos dois modelos de visitação.

Os resultados positivos foram construídos por meio da avaliação diária dos pacientes – uma vez pela manhã e uma vez à noite. São registrados dados como ocorrência de delirium, uso de fármacos psicoativos, uso de contenção mecânica, presença e perda de dispositivos invasivos como tubos, sondas, drenos e cateteres. Com esses dados, o estudo compara o modelo restritivo com o modelo ampliado em fases diferentes. 

A UTI do HGE já encerrou a primeira fase de coleta de dados no modelo restritivo e a partir do início de mês de abril iniciou o estudo no modelo ampliado, pelo qual as famílias têm acesso a UTI das 10h às 22h. A visita social, aquela de cerca de 60 minutos, permanece das 16h às 17h e é destinada aos demais familiares e amigos, de acordo com as preferências dos pacientes e seus familiares mais próximos.

Lucia Regina Leite, enfermeira que coordena a UTI do HGE e é responsável pelo projeto na área, explicou que todos os pacientes têm o benefício de receber até dois familiares cadastrados, por até 12 horas ininterruptas por dia, durante sua internação. “A ideia é melhorar a assistência prestada ao paciente. Acreditamos que poderemos obter os mesmos resultados dos outros centros participantes do estudo que demonstrou que, com a presença efetiva dos familiares é possível reduzir o uso de fármacos sedativos, uso de contenção mecânica e até mesmo o tempo de ventilação mecânica, visto que, a presença do familiar contribui favoravelmente no procedimento de extubação, pois o paciente fica mais calmo e orientado. 

De acordo com a enfermeira, com a flexibilização dos horários de visitação, o familiar tem a possibilidade maior de acompanhar a assistência prestada ao seu ente querido, sendo notável a melhora no bem-estar e na recuperação dos pacientes. “Foi verificado também a satisfação do profissional que atua na UTI, ao ter seu esforço reconhecido pelo familiar que está tendo a oportunidade de acompanhar a rotina estressante do setor. Acreditamos que a implantação desse novo modelo pode ser um marco na mudança da forma como as UTIs veem a visita aos pacientes gravemente enfermos no Brasil. Provavelmente, poderá mudar muito a questão da humanização nas unidades de terapia intensiva”, ressaltou Lucia Regina.

Ela contou que, antes de utilizar o benefício, os acompanhantes obrigatoriamente passam por um treinamento para se adaptarem à nova rotina e também cumprir as boas práticas relacionadas ao cuidado intensivo em uma área crítica, como higienizar constantemente as mãos, uma das normas básicas para quem circula em UTI. Foi o que aconteceu com Elisangela ao ser convidada para acompanhar seu pai dentro da UTI. O tempo maior de permanência no leito trouxe mais qualidade de vida, inclusive, para ela. Moradora de União dos Palmares, Elisangela passava mais tempo se deslocando entre o município e a cidade do que propriamente cuidando do pai. 

“Meu pai passou por uma cirurgia séria na cabeça, teve um trauma crânio encefálico com o acidente de moto. Eu ficava na porta do HGE querendo saber como ele estava, indo para casa, voltava. Fiquei muito preocupada quando soube que iria para a UTI. Ao me convidarem para acompanhá-lo lá, ver o tratamento, estar perto, senti-me tão feliz, realizada mesmo. Quando ele acordou, eu estava ao seu lado”, alegrou-se.

Benefícios – Os estudos mostram que o paciente em regime de visita estendida é melhor acolhido e tem melhora mais rápida, diminuindo o tempo médio de internação em um dia e meio, o delirium em 50% e infecções relacionadas à ventilação mecânica. “O fato de o familiar estar acompanhando o tratamento, contribui para o bem-estar do paciente e para a redução da necessidade de sedativos. Além disso, a ampliação do horário de visitas recebeu muitos elogios por parte das famílias envolvidas, traduzindo-se em palavras como confiança, afeto, carinho, segurança e amor.  A gente entende que só tem benefícios. Percebemos nas avaliações que já fizemos que a família fica mais incluída no processo de melhora e o paciente fica mais seguro por ter um rosto conhecido por perto”, relatou a psicóloga Eliana Sampaio.

Para ela, o UTI Visitas veio revolucionar o tratamento intensivo dentro do hospital. “O projeto veio em um momento importante. Percebe-se a melhora dos pacientes de um dia para o outro. Mesmo aqueles sedados, só em estarem com seus familiares, percebe-se a mudança do semblante, mais tranquilos, confiantes. Estamos muito contentes com os resultados vistos em nossos pacientes. Uma medida que veio reduzir o estresse, dar conforto, tranquilidade e segurança ao paciente internado em uma UTI. Sem falar que é uma oportunidade para a equipe identificar familiares com risco de estresse psicológico, possibilitando ações preventivas e referenciamento precoce para acompanhamento especializado”, acrescentou.

José Temis dos Santos (38) sabe bem disto. Ele é um dos pacientes beneficiados com o projeto, vem melhorando a cada dia na UTI, sempre com a presença da irmã Fernanda Santos ao seu lado. Natural de Sergipe, o ajudante de descarga se envolveu em um acidente de caminhão que lhe custou a perna direita. “Quando vou para casa? Já estou bom!” – fala, ansioso pela alta médica. Sua irmã comentou que sofreu muito com a perda da perna dele. “Nem contamos para nossa mãe ainda. Tenho recebido muito carinho por aqui. É interessante a visita estendida porque a gente consegue ficar junto com o familiar para tentar dar mais tranquilidade e também conhecer as equipes que trabalham todos os dias, todos os turnos”, relatou.

Humanização – Essa iniciativa vem sendo propagada dentro da unidade de saúde e a recente UCI Pediátrica, inaugurada em março, também já vem adotando um modelo parecido de visita ampliada. “Percebemos o quanto este projeto vem auxiliando a recuperação de nossos pacientes. Pensamos que para nossas crianças e seus familiares trará grandes benefícios também”, ressaltou Vania Ticianeli, assistente social e uma das responsáveis pela dinâmica do serviço multiprofissional.

O projeto – Embasado na experiência do Hospital Moinhos de Vento, que tem a visita ampliada há três anos implantada na unidade hospitalar, o projeto alcança hospitais das cinco regiões brasileiras. A iniciativa já rendeu destaque internacional e prêmios como o Top Cidadania 2017, na Categoria Organização, concedidos pela Associação Brasileira de Recursos Humanos, Seccional Rio Grande do Sul (ABRH-RS). Além de publicação na revista americana CriticalCare Medicine, periódico especializado em medicina crítica e dirigido a profissionais de saúde, gestores e cientistas. O HGE, referência em trauma no Estado de Alagoas, passou a fazer parte deste grupo seleto de hospitais inseridos no Projeto UTI Visitas em setembro de 2017.

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