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Pacientes com Aids são mais suscetíveis a desenvolver câncer

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Repórter: Marcel Vital
Repórter Fotográfica: Carla Cleto

Após décadas da popularização do vírus, ainda hoje o medo e o estigma podem contribuir para que uma importante parcela da população não faça a testagem rápida para o HIV. O diagnóstico precoce é benéfico para a saúde do soropositivo, pois ele já pode iniciar o tratamento médico antes de adoecer e agravar seu estado clínico. Segundo a infectologista e superintendente de Vigilância em Saúde da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), Mardjane Lemos, pacientes com a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids) têm maior suscetibilidade a desenvolver os mais variados cânceres. Além disso, eles apresentam uma taxa de sobrevida muito menor em razão das doenças oportunistas.

Entre os principais tipos de câncer que acometem os soropositivos estão o de boca, do colorretal e do aparelho digestivo, bem como o sarcoma de Kaposi (KP). Este último é o mais comum, sendo raro em pessoas com o sistema imunológico íntegro. Na pele branca, surgem lesões em forma de manchas avermelhadas, róseas ou violáceas, que se espalham pelo corpo e na região da boca e da faringe. Na pele negra, elas adquirem a coloração marrom ou escura.

O sarcoma de Kaposi é um tipo de câncer que acomete as camadas mais internas dos vasos sanguíneos. Além das lesões na pele, podem surgir outras semelhantes nos gânglios, no fígado, nos pulmões e por toda a extensão da mucosa intestinal e dos brônquios. É comum, também, elas se instalarem na parte interna das bochechas, gengivas, lábios, língua, amídalas, olhos e pálpebras, segundo informa a infectologista da Sesau.

Outros sintomas do sarcoma de Kaposi são inchaço, principalmente nos membros inferiores, por causa da retenção de líquido e, nos casos mais graves, sangramentos digestivos e insuficiência respiratória. O tratamento do sarcoma de Kaposi, de acordo com Mardjane Lemos, inclui quimioterapia e radioterapia, imunoterapia e drogas para inibir a formação de vasos sanguíneos. “Os medicamentos antirretrovirais contra o HIV diminuem o risco da doença nos portadores desse vírus e ajudam a promover a regressão das lesões”, explicou.

Há, também, outros tipos de câncer que têm relação indireta, como o de colo de útero. “O fato de a pessoa ter contraído o HIV predispõe a infecção pelo HPV [Papiloma Vírus Humano], que atinge a pele e as mucosas, podendo causar verrugas ou lesões precursoras do câncer, como é o caso do de colo de útero”, destacou a infectologista.

Mardjane Lemos ressalta que a etiologia do câncer é multifatorial e, portanto, não surge por um fator específico. O câncer de estômago, por exemplo, tem uma interação com infecções causadas por alguns tipos de bactéria, como a H. pylori, responsável pela ocorrência da maioria das úlceras e da gastrite crônica – quando ocorre a inflamação do estômago. “São microrganismos oncogênicos com capacidade de provocar o câncer que, diante da queda da imunidade, invadem as células do corpo e predispõem a formação da doença”, salientou.

A infectologista e superintendente de Vigilância em Saúde da Sesau frisou que todos esses cânceres podem acometer qualquer pessoa. A maior prevalência, no entanto, é em pacientes com Aids, visto que eles têm uma queda no sistema imunológico e, desse modo, a bactéria ou o vírus tem uma maior facilidade de invadir o corpo e levar à formação da doença.

A fase terminal

Pietro Rocha (nome fictício), de 26 anos, só descobriu ser portador do vírus HIV em 2013, quando a sífilis voltou a acometê-lo. A infecção já causava-lhe feridas pelo corpo, manchas vermelhas e, sobretudo, lesões na palma das mãos – sintomas que, para ele, eram facilmente confundidos com uma alergia cutânea.

Ele chegou a tomar antialérgicos, o que só aumentou as reações, afinal elas eram tentativas do corpo de sinalizar a doença, e uma medicação equivocada para os sintomas mascaravam o pedido de socorro – passe livre para o jovem voltar a transar sem preservativo e multiplicar a espécie da bactéria.

“Pense no meu desespero de vir sozinho para o Hospital Helvio Auto, aos 19 anos, e receber o diagnóstico de estar infectado pelo vírus HIV. A psicóloga conversou comigo sobre a importância do tratamento, mas, dentro de mim, algo dizia para eu não fazer. E foi assim que aconteceu”, contou Pietro.

O preconceito velado da sociedade, segundo o jovem, aumentou a dúvida sobre contar ou não sobre a soropositividade. “Isso gerou um medo de que, quando os outros viessem a saber, despertasse neles o lado mais sombrio, a rejeição. O prejulgamento é pior do que o próprio tratamento, pois causa uma pressão forte sobre o portador do vírus, que acaba optando por esconder sua condição sorológica”, disse. Pietro passou cinco anos convivendo com o HIV, sem apresentar sintomas ou qualquer outra reação.

No entanto, com o frequente ataque do vírus em seu corpo, as células de defesa começavam a funcionar com menos eficiência até serem destruídas. O organismo de Pietro ficava cada vez mais fraco e vulnerável a infecções oportunistas. À época, o jovem foi diagnosticado com tuberculose ganglionar – que é bacteriana e acomete os gânglios linfáticos, também conhecidos como linfonodos. Além do aumento dos gânglios com dor local, ele passou a ter febre, diarreia, suores noturnos e emagrecimento. Os 63 kg foram reduzidos para 41 num curto espaço de tempo.

Em 21 de fevereiro deste ano, dia em que sua mãe, Joana, de 52 anos, comemorava mais um aniversário, a situação ficou crítica e o rapaz precisou ser levado às pressas a um ambulatório, visto que seu tio suspeitava que ele já estivesse com os sintomas da Aids. Chegando lá, a desconfiança foi confirmada com exames laboratoriais. No entanto, o que Pietro e a família não esperavam era que, além do diagnóstico da síndrome, o jovem também estivesse com um câncer instalado no intestino.

Apesar de acreditar que tenha sido alvo de transmissão intencional do HIV, Pietro optou em não conversar com as pessoas com quem teve contato em atos sexuais. “Desconfiar é uma coisa e ter certeza é outra completamente diferente. Mas, agora, isso não importa mais. Estou aqui, prostrado numa cama de hospital, sentido fortes dores no meu corpo, sem saber quando vou ter alta”, lamentou, enquanto enxugava as lágrimas.

Pietro Rocha é um jovem de rosto e corpo extremamente magro, estatura mediana e de olhos claros pequenos e atentos. Sua vida sexual começou aos 14 anos e os encontros casuais aconteciam sempre depois das baladas. “Conheci caras super legais, onde rolava uma química e um tesão incontroláveis, e nunca deixei de me entregar por medo de tomar algum atitude insensata. Optava por ficar com outros homens ou mesmo ter um romance, mas sem a gente se autointitular namorados. Nunca transei com camisinha porque eles eram extremamente carinhosos comigo e me passavam confiança em tudo que diziam”, admitiu.

Para ele, as pessoas que utilizam aplicativos de encontros para sexo ocasional – e não se protegem – estão mais vulneráveis ao vírus HIV. “Porque, às vezes, a gente vê um homem ou uma mulher de rostinho bonito e, por dentro, eles podem estar infectados pelo HIV e não sabem. O objetivo desses aplicativos voltados para o público LGBTI+ é puramente o sexo. E só. É aí onde mora o perigo. Se você quiser ter uma relação sexual prazerosa, primeiro faça o teste rápido e não abandone o uso do preservativo”, alerta. “Espero, do fundo do coração, que as pessoas não cometam o mesmo erro que eu.”

Depois de tudo o que viveu, Pietro reflete, através da janela do leito no qual se encontra, que se tivesse sido mais seletivo nos relacionamentos as chances de decepção seriam menores. “É claro que ao olhar para trás me bate um arrependimento, pois foi por conta do meu comportamento de risco que estou aqui”, confessou, envergonhado. “Embora eu saiba que algum dia eu vá morrer em função da Aids, não deixo que isso afete o meu íntimo, o prazer que eu tenho em viver, em sorrir. Estou com a doença porque demorei muito para buscar o tratamento, por pura ignorância”, desabafou o jovem.

De acordo com Pietro, os remédios lhe causam efeitos colaterais, que vão desde dor de cabeça até problemas ósseos, renais e cardíacos. “Eu tomo três comprimidos por dia, sendo um pela manhã e os outros dois à noite. São drogas muito pesadas, no início do tratamento a gente costuma ver vultos, ter pesadelos e muita insônia. Meu organismo demorou, em média, quatro meses para se acostumar. Eu ainda tenho alucinações que me deixam muito mal. Não são como antes, mas me incomodam bastante”, contou, após pedir a uma das enfermeiras um analgésico para aliviar a dor nas costas. “Não desejo esses sintomas nem para o meu pior inimigo”.

Desde o diagnóstico de HIV, o rapaz não teve nenhum namorado e tem receio de se envolver afetivamente em um novo relacionamento. “Perdi a vontade. Não pretendo mais me relacionar com ninguém por conta da doença e, principalmente, pelo estigma da sociedade. Não acredito que eu possa me apaixonar novamente e, caso isso venha acontecer, vou bloquear meus sentimentos, porque o que eu não quero para mim, não desejo aos outros”, frisou.

Há um mês internado, Pietro têm muitos sonhos e acredita que será muito feliz quando eles forem concretizados, um por um. “Não vejo a hora de começar o tratamento quimioterápico, ganhar peso e voltar para a minha faculdade de Direito, que tanto amo”. Também tem projetos para o futuro: diz que pretende aprender a língua inglesa e, quem sabe, viajar até Nova York. Quer conhecer a Times Square. “Ouço falar que é um lugar incrível”.

Entre os sentimentos mais comuns que relata estão a solidão, a tristeza e a sensação de desamparo. A combinação dessas emoções já o levou à depressão e ao medo de morrer. De descuidar da saúde. De adoecer ainda mais. De sofrer. “Diariamente eu olho para os lados e me vejo sozinho, mesmo com o apoio incondicional da minha família. Agora é seguir o tratamento e ‘bola para a frente’, porque tem gente que abandona. Eu vou continuar lutando para conquistar tudo o que eu sempre quis. Vou mostrar minha força para quem pensa que eu sou fraco, vou ser um vencedor, vou voltar a viver novamente”, afirmou sorrindo. “Nossas escolhas dirão para onde iremos, e só você pode mudar a sua”.

Cinco dias após conceder essa entrevista, Pietro Rocha morreu às 12h40 de uma segunda-feira de novembro em decorrência da Aids e do câncer de intestino, doenças contra as quais lutava desde fevereiro deste ano.

A inexorável dor da perda

Abatida, a mãe do jovem disse que os últimos dias do filho no leito hospitalar foram desesperadores. Dia após dia, Pietro piorava, sentindo fortes dores no coração e na coluna, devido à fraqueza do corpo. Precisou ser higienizado pela equipe médica no quarto, pois não tinha mais condições de se locomover até o banheiro, que ficava a menos de 1 metro da cama. Quando conseguia cochilar, o sono era interrompido pelas alucinações. “Antes de ir para a UTI, ele me pediu perdão por tudo”, descreveu a mãe, chorando.

Para ela, aceitar a inversão da ordem natural do ciclo da vida foi “dolorosamente terrível e assombroso. Ele era um jovem com todas as alegrias e sonhos da sua idade e do seu tempo”. Fez uma viagem sem volta, esperada porém sem minutos contados para dar o último adeus. “Soube da morte do Pietro quando estava entrando no hospital para visitá-lo. Já o vi com os olhos fechados”, relembrou.

“É impossível medir a dor da perda de um filho. Não consigo mensurá-la, é uma dor aberta, singular, egoísta e gigante. Por isso, deixo aqui o meu conselho e o meu alerta para todas as famílias: conversem todos os dias com seus filhos sobre os riscos das relações sexuais sem camisinha e a importância de fazer o teste rápido. Se dependesse exclusivamente de mim, ele ainda estaria aqui, rindo e feliz da vida. Agora o que me resta é só saudade”, lamentou a mãe.

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